segunda-feira, março 06, 2006

N?o sei para onde vou...


N?o tenho tido muito tempo para desenvolver a ideia de dizer tudo o que penso, nem sei por onde começar...
Politica? Comédia? Cultura? Relaç?es?
Duvidas duvidas duvidas?
Decidi-me pela poesia, este poema de José Régio ilustra a liberdade de express?o e de pensamento e já me acompanha há uns bons anos.
Escolher, bem ou mal, é um direito que nos assiste. Todos devemos pensar pelas nossas cabeças e n?o seguir "encarneirados" o rebanho cego, mudo e surdo da sociedade actual. Errar e ser diferente é um direito e um dever, pois se todos fossem perfeitos, aos olhos de cada indiví­duo o mundo seria ao mesmo tempo mais monótono e mais confuso, visto a utopia de uns ser o inferno de outros.

Cântico Negro

"Vem por aqui" ? dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
N?o acompanhar ninguém.
? Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre ? minha m?e
N?o, n?o vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...


Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço n?o vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram m?e;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me d? piedosas intenç?es,
Ninguém me peça definiç?es!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
N?o sei por onde vou,
N?o sei para onde vou
Sei que n?o vou por aí!

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, Brasília Editora, 10? ediç?o,

Lisboa 1984

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